por Emilio Caldeira
Esta é uma pergunta
que a maioria dos pára-quedistas se faz ou já se fez; qual é
o velame ideal? Independente das vertentes ou idolatrias de modalidades praticadas
(free-flying, TR, skysurfing, etc.) todos utilizam velames. A modalidade praticada
e a atividade (pára-quedismo profissional ou amador) em geral ajudam
e dão direcionamento na escolha do velame; mas mesmo assim, ainda não
é tudo!
Nos últimos 4 anos nosso esporte recebeu vasta gama de tipos e modelos
de velames que jamais seria imaginado 12 anos atrás. E isto é
algo extremamente benéfico, pois são hoje oferecidos velames
para atender grande variedade de "necessidades" da comunidade. São
como exemplo os skysurfers, que por carregarem uma prancha necessitavam de
um velame com uma abertura estável, ou como o pessoal intermediário
que de um PD teria que passar direto para as elevadas performances dos Sabres
ou Stilettos.
Pode-se resumir que a escolha do velame vem da "necessidade" do
pára-quedista. O que não é simples resumir, é
o que viria a ser "necessidade"!
Os principais pontos que a compõe são:
- Dobragem (dificuldade, detalhes)
- Abertura (tranco, tendência de giro)
- Desempenho (flutuação, velocidade)
- Pouso (dificuldade, velocidade, criticidade)
- Manutenção (troca de linhas, desgaste)
- Mercado (aceitação, valor)
- Ego (...o que os outros acham do velame!)
Em geral um ou dois itens dos acima são os principais na escolha do velame. Não há nada de errado nisto, pois ainda não existe tecnologia para agregar em um só velame todas as qualidades aspiradas (ex.: a mais alta performance com a mais fácil dirigibilidade e segurança). É o mesmo quando da escolha de um carro, trabalho, e até namorada(o)!
A essência
da escolha do velame é ponderar entre as vantagens e desvantagens que
cada opção de velame em relação à necessidade
do pára-quedista!
Podem notar que na lista não se encontram "experiência"
e "segurança", pois experiência será (ou deveria
ser) o fator que vai decidir quais itens e em que níveis eles serão
atendidos pelas opções disponíveis e, segurança,
será simplesmente o resultado da escolha.
Trata-se da
matemática do "tudo tem seu preço"!
Exemplificar é fácil: velame que tenha boa aceitação
para garantir a venda; comprar um P0 como primeiro velame já que logo-logo
vou ter que trocar mesmo; um igual ao que o fulano usa; não gostar
de velocidade e comprar um conservador; se achar conservador e comprar um
radical P0 grande; comprar principal 210 e reserva 120.
O pára-quedismo (e a escolha de um velame) pode ser encarado como nossa
vida do dia-a-dia. Exemplificando com nosso trabalho, não nascemos
sabendo e, para fazer o que fazemos hoje tivemos que estudar, pesquisar, dedicação
ou, até mesmo, herdar conhecimentos de quem nos monitorou por certo
tempo e ainda podemos ir mais longe lapidando a atual experiência e
buscando novos conhecimentos. Focando em velames, ainda podemos melhorar e
aprimorar em muito a atual experiência e desenvolve-la. O que parece
ser óbvio mas, sabemos que não ocorre, é que independente
de sair de uma aeronave à 3000 pés ou mandar um head down "sarado"
à 12000 pés, vamos ter que navegar e pousar um velame... todo
salto... e nem assim estamos aptos ou capazes de pousar sempre num mesmo lugar...
ou ter uma precisão razoável. Muitas vezes somos incapazes de
identificar se o vento está forte ou não!
O que isto tem haver com a escolha de um velame? Tudo! Pois isto é "experiência" e, quanto mais se souber de seu atual velame, maior será a probabilidade de testar um velame desconhecido e avaliar quais pontos são favoráveis ou não às suas necessidades.
Duas coisas devem estar aliadas quando da escolha de um velame: consultar alguém experiente e "testar" mais de um velame. Devemos nos sentir confortável quando usando um velame e nunca acuado ou com medos extremos (da abertura, do pouso, etc.).
Uma mesma característica dum mesmo velame podem trazer diferentes percepções e sentimentos de seus usuários. As experiências adquiridas com um velame não são perdidas quando se troca por outro, e sim elas são transportadas. Velames podem ser classificados por níveis de experiência e existe importante significado nesta classificação! TODOS erramos! Cedo ou tarde cometemos um erro mais grosseiro, mas NUNCA podemos cometer um erro fatal. E, por incrível que parece, erro fatal é em geral um erro "básico".
Erro "básico": Quando inicia-se no Student, aprende-se que não se pode pousar sem flair, não fazer curva baixa e não bater em obstáculos. Embora possam não ser erros fatais, estão entre os mais graves a serem cometidos com um Student, enquanto que um erro básico seria fazer o flair puxando um dos batoques mais do que o outro. Este último é comum ocorrer quando se pousa desequilibrado e tende a cair para um dos lados onde a reação natural do corpo é querer segurar a queda apoiando-se com a mão. Como a mão está com o batoque, ela intensifica essa tendência e: chão! Com um Student, sem problemas, mas com um PD isto já pode acarretar em machucados. Este erro "básico" jamais pode ser cometido com velames de maior performance, pois tornam-se erros "fatais" dadas as altas velocidades envolvidas.
Mesmo os velames de alta velocidade como Velocity ou Extreme toleram erros, mas são erros onde muitas vezes as correções começam a se dar entre 400 e 300 pés de altura. É absolutamente inimaginável pousar um velame destes sem fazer flare. Para todo "nível" de velame existem erros toleráveis e não toleráveis onde, a cada vez que se utiliza um velame um nível acima, mudam-se também os níveis de erros que podem ser cometidos e os níveis de conhecimento (experiência) necessários. Portanto, antes de trocarem de velame aprendam o máximo que podem com seu velame atual. O melhor indicador de que você conhece bem seu velame é a precisão de pouso. Conseguir pousar "sempre" e suave onde você quer indica "diretamente" conhecer bem o velame e seu comportamento em função do clima (vento, por ex.) e "indiretamente" que você tem boa navegação, já que para pousar "sempre" onde se quer significa que soube evitar tráfego no pouso administrando as alturas e aproximação. Por outro lado, encontrar tráfego de pouso em todo salto e dificilmente pousar onde pretendia é sinal que ainda se tem muito por aprender! Este domínio do velame e navegação podem ser primordiais quando de um pouso em área alternativa.
É fundamental para o aprendizado com um velame que tão logo se pouse se faça um debriefing já nesse momento, analisando porque não pousou onde queria. É neste momento que poderá perceber se uma mudança de vento ou o tráfego de pouso influenciou, tendo isto como aprendizado e podendo utiliza-lo já para o próximo salto.