Velames Radicais

Texto de Ricardo Pettená
Conteúdo da palestra ministrada dia 28 / dez / 97 na Azul do Vento.

O que é um velame radical?
A resposta varia com a época. Em 1970, um velame radical era um hiper-sustentado do tipo Para Commander ou Papillon. Em 1980 era um Strato Cloud. Atualmente, um velame radical é, basicamente, nada mais que um velame retangular ou elíptico, feito com nylon zero porosidade, como o Stiletto, Sabre e outros.

Mas pôr que são chamados de radicais?
Simplesmente porque são capazes de fazer manobras que estão fora dos limites de controle da grande maioria dos usuários. Ou seja, alguns pilotos mais experientes conseguem extrair o máximo desses velames e, por exemplo, fazer "hook turns" de 270o próximos ao solo, terminar com belíssimos pousos em altas velocidades e ganhar suspiros de admiração. Outros conseguem atingir o solo com grandes velocidades e ganhar uma carona até o hospital mais próximo.

Situações de risco potencial
As situações de risco potencial não se limitam aos pousos radicais. Na medida que a performance dos velames aumenta, aumentam os riscos de colisão no momento da abertura e da navegação. Isso porque, se antes um velame demorava 5 segundos para percorrer uma determinada distância, hoje um velame rápido leva apenas 2 segundos. Com isso diminui o tempo de reação. Uma colisão pode acontecer momentos após a abertura ou durante a navegação.

Velames radicais podem causar panes de abertura com line twists e giros radicais para trás, capazes de deixar um pára-quedista inconsciente, se este não agir rapidamente.

Acidentes podem acontecer, também, nos pousos fora da área de salto, quando as alternativas são poucas e os obstáculos são muitos. Nesses momentos de muita adrenalina, a sobrecarga sensorial impede o piloto de agir com a tranqüilidade necessária para evitar um acidente.

Peso ideal: como calcular
A primeira variável a ser calculada para diminuir os riscos ao saltar com velames radicais é saber se o tamanho do pára-quedas é ideal para o seu peso e experiência. As fábricas recomendam a relação de 1.1. Isso quer dizer que o total de libras de peso do pára-quedista, dividido pelo tamanho do velame deve resultar em algo próximo de 1.1.

A experiência pode influenciar na decisão do tamanho do velame. Um pára-quedista com muitos saltos com um determinado tipo de velame pode forçar a barra e passar para um velame menor, criando um relação de 1.2 ou 1.3, por exemplo.

Velame grande ou pequeno?
Essa questão é muito fácil de ser respondida. Velames pequenos servem para satisfazer o ego.

Mesmo que o pára-quedista não utilize nem 5% dos recursos do pára-quedas, ele se sente bem quando alguém pergunta: qual é o tamanho do seu velame?

Se a resposta é "120", quando na verdade deveria estar saltando com um 150, o nosso amigo gosta mais de fazer pressão do que de saltar.

Saltando com um velame maior o pára-quedista se sentirá mais confiante, fará melhores pousos e com isso causará melhores impressões, embora isso não deva ser levado em consideração.

Numa área de saltos onde salto regularmente dois pára-quedistas tem o mesmo peso e a mesma experiência. Um salta com um Stiletto 120 e o outro com um 150. Aquele que salta com o 120 faz pousos padrão, pois com toda a razão, nem se arrisca a fazer qualquer manobra para aumentar a velocidade do velame próximo ao solo, e como o velame é muito pequeno, sempre faz pousos ruins. Já o outro, mais confiante sob um velame que lhe dá mais sustentação e estabilidade, aprendeu a fazer pousos com o tirante da frente, depois começou a fazer curvas de 90o e finalmente está fazendo belos pousos.

Dobragem: como evitar line twists e panes
O primeiro cuidado que você deve ter ao saltar com velames radicais é com a dobragem. Sempre que eu vou saltar em uma área diferente ou boogie, procuro conversar com os dobradores e me certificar de que eles usam alguns princípios fundamentais:

  1. Se o pára-quedas é um Stiletto, não enrolar a cauda.
  2. Manter as linhas totalmente esticadas e desembaraçadas o tempo todo.
  3. Colocar na bolsa com cuidado para não desfazer o que está feito.
  4. Ao fazer as bonecas com as linhas, usar borrachinhas bem apertadas.
  5. Fazer bonecas com 7 centímetros, conforme recomendação da fábrica. Se as bonecas estiverem frouxas ou forem pequenas, via de regra, acontece o fenômeno do line dump, que é a saída do velame antes das linhas estarem totalmente esticadas, o que normalmente resulta numa pane.

Cuidados na abertura
Os riscos de colisão no momento da abertura são maiores com velames de alta performance. Como afirma John Leblanc da Performance Designs, mesmo que seu pára-quedas abra de frente para outro, você deveria ter distância e tempo suficientes para desviar com uma curva de tirante traseiro.

Um bom track é fundamental para garantir uma boa separação. Portanto siga estes conselhos:

1- É muito comum as pessoas se enganarem achando que estão fazendo um bom track e que a separação na abertura está dentro de limites aceitáveis. O motivo do engano é muito simples: "depois da abertura, não vi ninguém perto de mim". A razão pela qual não havia ninguém próximo está longe de ser um bom track com separação horizontal. A ilusão de estar distante vem da separação vertical, resultante do acionamento dos pára-quedas em momentos diferentes. O problema fica crítico quando os velames abrem na mesma altura. Portanto, aprenda a fazer um bom track. Pergunte para quem sabe e treine no chão e no ar. Posso garantir que não se chega ao track ideal em alguns poucos saltos. É preciso dedicação e vontade de aprender. Algumas dicas que vão ajudar a melhorar muito a performance do seu track: estenda a perna totalmente (pernas esticadas na altura do joelho); pegue um ponto de referência e mantenha a direção; não sele; e, fique com as pernas e braços um pouco abertos para manter estabilidade lateral. Se você já faz um bom track, continue fazendo o que já sabe e procure incrementar. Se, ao se afastar de uma formação você estiver afundando em relação a ela, pode voltar ao básico.

2- Logo após o acionamento, pegue os tirantes traseiros, cheque o seu velame e procure outros pára-quedas em rota de colisão. Se for o caso desvie puxando o tirante traseiro.

Ajude o velame abrir no heading
Além dos cuidados com a dobragem do pára-quedas mencionados anteriormente, você pode fazer muito para manter os velames elípticos no heading durante a abertura. Em primeiro lugar é preciso desenvolver uma certa sensibilidade em relação ao que está acontecendo com o pára-quedas no processo de saída da bolsa, "esticagem" das linhas e "inflagem" do velame. Ao sentir que o pára-quedas tem alguma tendência de giros, procure neutralizar, colocando mais peso no tirante de perna oposta ao giro. Essa técnica é delicada, porém é muito eficiente.

Procedimentos de emergência
Os velames radicais, principalmente os elípticos de tamanho reduzido podem ter panes também radicais, com as quais o usuário deve estar preparado lidar. Uma pane característica desses velames é aquela que o velame abre com line twist e girando. A intensidade do giro pode ser tal que o pára-quedista se sente puxado para trás. Como as linhas estão torcidas, não é possível anular o giro. Nessa hora é preciso desconectar e comandar o reserva imediatamente.

Atenção: certifique-se de que o principal foi liberado antes de acionar o reserva. Em alguns casos recentes de pane, os pára-quedistas desconectaram e comandaram o reserva ao mesmo tempo. Por pouco não tiveram o reserva embaraçado no principal.

Cuidados na navegação
A primeira regra de segurança é manter contato visual com todo mundo, o tempo todo.

Logo após a abertura, faça o cheque de velame, procure se situar e decida se é melhor flutuar ou afundar. A decisão depende de vários fatores: olhe ao seu redor e observe onde estão todos. Verifique se você está mais alto ou mais baixo que a maioria.

A linha de ação a ser tomada depende de seu velame ser pequeno, ideal ou grande para o seu peso? De acordo com John Leblanc, você deve agir da seguinte forma:

1- Se estiver mais baixo e com um velame de tamanho médio, quando comparado com o grupo: pouse o quanto antes. Com isso você vai ajudar a aumentar o período de tempo em que as aterragens vão ocorrer. Caso contrário você estará contribuindo para criar um tráfego perigoso.

2- Se estiver na parte inferior, mas com um velame grande: provavelmente os velames pequenos vão ultrapassá-lo cedo ou tarde, e para sua segurança é melhor que isso aconteça logo de cara. O melhor procedimento é segurar nos freios desde o início.

3- Com um velame grande ou médio e na parte superior: mesma coisa. Procure segurar desde o início. Com isso você contribui para aumentar o período de tempo em que os pousos vão ocorrer.

4- O que acontece se você estiver alto em relação à maioria, mas tem um velame pequeno? Segure nos freios e tente se manter junto aos velames maiores até encontrar um espaço no tráfego abaixo de você. Aí você afunda e procura preencher o espaço encontrado, que normalmente está logo à frente dos velames grandes.

Atenção: nunca faça espirais quando houver mais velames no ar. Tome cuidados especiais com os outros na final, em especial com alunos que fazem curvas em "S" para perder altura. Cuidado, também, com os imprudentes que fazem hook turns mesmo quando existem outras pessoas no tráfego e com os desorientados que aterram de cauda ou de través.

Pouso padrão
O pouso padrão com velames radicais não tem segredos. Aprenda a mexer nos batoques com suavidade. Coloque o velame de vento de nariz. Descubra o timing perfeito para o flare. Lembre-se que o seu velame é um aerofólio e que como tal ele precisa de velocidade para voar, mesmo próximo ao solo. Se você iniciar o flare muito alto, a asa perde sustentação. Faça um movimento suave e constante, sem batocadas, de modo a terminar o flare no momento em que os pés estão chegando ao solo.

A Performance Designs sugere que você pratique aproximações com velocidades diferentes para estar familiarizado com o comportamento do pára-quedas quando uma situação especial exigir:

  1. segurando no meio freio, e
  2. com um pouco de tirante da frente.

Alguns erros comuns ficam pôr conta do manuseio dos batoques. Como já mencionei anteriormente, evite puxar e soltar os batoques. Outro erro frequente acontece quando o pára-quedista estende um braço para se proteger e aumenta a curva para o lado que esticou o braço.

Evite pousar fora da ZL
Outra dica muito importante e que poderia ter evitado muitos acidentes está diretamente relacionada com o "ponto de abertura do pára-quedas", e também a altura de abertura. Pousar um pára-quedas fora da área aumenta os riscos de um acidente. Se levarmos em conta que muitas vezes a razão de pousarmos fora da área é uma abertura baixa, então o problema fica ainda mais complicado, pois o tempo para tomada de decisões é menor. Assim, procure checar o P.S. antes de sair do avião e em queda, se possível. Planeje abrir o seu pára-quedas mais alto para ter uma margem de segurança. Inicie a separação com altura suficiente para poder comandar alto.

Outras dicas: aprenda a lidar com as seguintes situações:

  1. P.S. longo, com vento de cauda: use os tirantes de trás e procure encontrar o melhor angulo de ataque. Usar os freios também; é válido;
  2. P.S. negativo, com vento de nariz: puxar os tirantes da frente;
  3. P.S. no través do vento

Pouso radical: fun ou fatal
Velame radical é fun, disso ninguém tem dúvida, mas será que vale a pena correr o risco de ficar paralítico ou morrer numa tentativa de pouso radical mal sucedida? Pessoalmente, eu desaconselho. Sei que alguns irão insistir e tentar. Para esses, minha sugestão é que o façam sob a supervisão de um piloto de velames bastante experiente em pousos radicais. Receba instruções e faça só o que lhe for determinado. O risco continuará existindo mesmo assim. Aqui vão alguns conselhos para minimizar o risco e aumentar as chances de sucesso:

1- Aprenda aos poucos, comece com tirantes dianteiros. O primeiro passo é estudar e conhecer todas as características de vôo do seu velame e de velames em geral. Tanto na teoria como na prática. O livro Basic Canopy Flight da Skydive University discorre sobre toda a teoria e propõe exercícios práticos.

Aprenda a pousar padrão em primeiro lugar. Depois faça pousos puxando os tirantes da frente. Tenha sempre em mente as regras básicas de segurança. Aborte a tentativa se houver tráfego. Faça "centenas" de pousos de tirante da frente até dominar totalmente a técnica.

2- Ouça os mais experientes. Se alguém falar que você está fazendo pousos perigosos, curvas muito baixas, está sem controle, ouça, agradeça e diminua a sua intensidade, pois grandes são as chances de você virar estatística.

3- Mais sobre tirantes dianteiros. Basta 10 a 20 centímetros de tirantes dianteiros para se produzir um aumento significativo na velocidade de aproximação e pouso. Certifique-se que o seu velame é estável nessa atitude de vôo. Mantenha sempre os batoques nas mãos. O segredo da "voadinha" próxima ao solo se traduz em uma palavra: eficiência. Eficiência, segundo Peter Raymond, é manter o velame com o máximo de velocidade e interferir o mínimo com essa velocidade. Para usar a técnica do tirante dianteiro e manter a eficiência na saída do mergulho, o piloto deve soltar os tirantes suave e gradativamente e acionar o mínimo de batoques. Atenção: teste essa técnica várias vezes bem alto, antes de tentar próximo ao solo.

4- O conceito de corner: John Leblanc utiliza o termo para descrever a transição que ocorre do mergulho vertical para o planeio ou "voadinha". Quanto mais acentuado for o corner, ou seja, o angulo da transição, mais perigoso e ineficiente será o pouso (ver ilustração). Tente fazer a transição o mais arredondada possível. De acordo com John Leblanc, o velame tem uma tendência natural de sair de um mergulho, mesmo sem o uso dos batoques.

5- Simulações à grandes altitudes. Embora seja aconselhável fazer treinamentos à grandes altitudes, que fique bem claro aqui que de nada adiantam essas simulações no que se refere à avaliação da altura de início de manobras próximas ao solo. Mesmo após inúmeros treinamentos no alto, não tente fazer uma manobra radical próxima ao solo. Lembre-se: pode ser fatal.

6-Curvas de 90o . A partir daqui o risco começa a aumentar, mas se nada posso fazer para desaconselhá-lo de tentar manobras radicais próximas ao solo, que pelo menos aceite este conselho: procure um piloto de velame muito experiente para instruí-lo. E atenção, são poucos os que sabem fazer e ensinar, portanto escolha com cuidado o seu instrutor. De qualquer forma, não tente curvas de 90o antes de ter realizado algumas centenas de pousos perfeitos com tirante da frente e de ter certeza de dominar todas as variantes da técnica. Siga à risca as instruções do seu mestre e não passe ao estágio seguinte sem que ele o tenha determinado. As curvas de 90o devem ser realizadas com os tirante da frente e sempre com altura suficiente para sair alto do giro e ainda usar a técnica dos dois tirantes da frente. Dessa forma, você estará reunindo uma técnica que já domina com uma a ser dominada e resguardando a preciosa altura. Se não for possível completar a curva, pouse de través, mas cuidado com o tráfego.

7- Manobras diferentes perdem mais ou menos altura, dependendo da técnica utilizada. A Performance Designs recomenda que o piloto de velame que faz curvas como forma de ganhar velocidade antes do pouso, aprenda que as técnicas diferentes produzem perdas de altura de forma diferente. As curvas de batoque (subentenda-se curvas violentas de batoque) próximas ao solo não são recomendadas pois mudam radicalmente a inclinação lateral do velame.

8- Muito tirante da frente ou pouco tirante da frente na curva?. A diferença está na perda de altura resultante da manobra. Usando muito tirante o velame (depende o tipo de velame) gira rápido e perde muita altura. Usando pouco tirante da frente o velame ainda gira relativamente rápido, porém perde menos altura, com a vantagem de se poder abortar a curva mais facilmente.

9- Deixa uma margem para abortar. Isso quer dizer o seguinte: prepare-se sempre para iniciar a curva o mais alto possível, usando as técnicas que perdem mais altura. Comece a curva bem alto, muito alto. Errar para cima não custa tão caro em termos de integridade física. Se você perceber durante a curva que está muito baixo para a técnica de muita perda de altura, mude para um método mais apropriado. Qualquer uma das técnicas mencionadas neste item e no anterior requerem algumas centenas ou milhares de salto de experiência em manobras radicais da parte do piloto.

10- A ação no corner é determinante do nível de segurança nas manobras radicais próximas ao solo. Se você terminar a curva e tiver que puxar os batoques para sair do mergulho, isso significa que você iniciou muito baixo (velame claro na ilustração). O velame escuro faz a curva na altura correta e volta à sua atitude de vôo normal sem que o piloto tenha que atuar nos batoques

11- O ideal é iniciar bem alto, fazer a curva de tirante dianteiro e terminar a curva bem alto. Nesse momento você estará longe do solo e bastante seguro. O velame estará numa atitude de mergulho, ganhando velocidade vertical que será naturalmente transformada em velocidade horizontal. Quanto menos ação nos batoques, maior a eficiência e maior a segurança. O velame irá nivelar paralelo com o solo e o piloto irá aplicar um mínimo de batoque para maximizar o vôo.