by Naomi Adam (escritora freelancer e pára-quedista em Sydney, Australia )
O pára-quedismo testa nossa visão tridimensional, ou percepção de profundidade, de tal forma que pessoas que não saltam jamais irão experimentar.
Nunca esquecerei do pânico que senti por causa de uma ilusão ótica num salto quando era recém formado. Eu estava experimentando um novo equipamento e comandando alto. Com o velame já aberto e voltando para a área vi um time de 4-way logo abaixo de mim, ainda fazendo pontos. Eu via, alarmado, e pensava: eles estão muito baixos, eles vão bater!!!.
É lógico que não demorou até que eles virassem, separassem, e comandassem a uma altura normal. Depois de vê-los voando por um tempo, percebi que era impossível que eles estivessem tão perto do chão como me pareceu à primeira vista.
Isso me fez pensar: por quê conseguimos julgar distancias visualmente,e por que às vezes não conseguimos julgá-las tão bem, especialmente no céu?
O estudo da visão tridimensional é um bem fundamentado ramo da psicologia. As teorias básicas que explicam a percepção foram propostas em meados do século XIX, e ainda são consideradas hoje em dia.
A visão tridimensional é baseada na dedução inconsciente de várias "pistas". Em outras palavras, nosso cérebro junta pequenas informações de um acontecimento, e as combina criando nossa percepção (noção) de profundidade. Nós não nascemos com essa habilidade, como a própria visão, é algo que desenvolvemos quando ainda bebês.
Nos primeiros meses de vida, aprendemos a entender as imagens que nosso olhos vêem. Com cerca de 6 meses de vida, a maioria das crianças começam a ter noção de perspectiva. Elas param de cometer erros ao julgar distâncias - ao tentar alcançar certas coisas que estão além do comprimento de seus braços.
Percepção de profundidade: Como funciona
Nosso cérebro aprende a combinar três, assim chamadas, "pistas"
primárias para criar uma figura tridimensional. Apesar de não
estarmos conscientes dessas "pistas", eles são: acomodação
da vista, convergência do ângulo dos olhos, e disparidade binocular.
A acomodação é um refinado mecanismo de bioalimentação de dados. Os músculos nos nossos olhos focam as imagens mudando a forma das córneas. O cérebro então mede a tensão relativa a esses músculos ajudando a julgar distâncias de até 25 pés (7,5 m).
A próxima "pista" primária é chamada convergência. Envolve entrada de dados de outro grupo de músculos dos olhos, aqueles que movem os olhos. Quando você foca algo muito próximo ao seu rosto, você fica quase vesgo, enquanto que ao focar objetos mais distantes a visão torna-se paralela. Seu cérebro usa o feedback desses músculos para medir distâncias de até cerca de 80 pés (25 m).
Talvez a mais conhecida "pista" para a visão tridimensional seja a disparidade binocular, também conhecida como visão estereoscópica (hahaha...tá parecendo o Aurélio não tá não?). Tem um raio de ação bem maior, talvez 1000 pés (300 m). No centro do nosso campo de visão, o campo de visão de cada olho se sobrepõe. As pequenas diferenças nas cenas que cada um dos olhos vêem são processadas pelo cérebro dando a impressão de profundidade.
Pistas secundárias para a visão tridimensional:
Por um longo tempo os psicólogos pensaram que essas três "pistas"
fossem suficientes para explicar tudo sobre a visão 3D. Mas logo após
a Segunda Guerra Mundial, um piloto de caças chamado J.J. Gibson começou
a questionar as teorias até então estabelecidas. Ele pensou
que a teoria da aproximação (convergência) explicava muito
pouco sobre como aterrisar um avião.
O primeiro ponto a serem levantadas questões é que embora 25 ou 80 pés (distâncias efetivas de acomodação e convergência) serem comparativamente distantes no nosso dia a dia, essa distância não é nada no ar. A disparidade binocular tem um maior raio de ação, mas não explica tudo.
Em outra de minhas experiências, tive que concordar com Gibson. Eu usava um par de óculos, que estavam bem ajustados até que eu comecei a sorrir (efeito natural quando estamos em queda livre), e isso fez com que o ar entrasse pela fresta. Em muitos saltos isso arrancou a lente de contato de um dos meus olhos. Com cerca de -7,0 graus de hipermetropia, isso significava que eu estava efetivamente cega de um olho, e é claro impossibilitada de usar a convergência em minha percepção de profundidade.
No meu pouso com um olho só me senti um pouco estranha, mas bem - prova que há um sistema mais complexo que as pistas primárias.
Gibson descreveu um leque de pistas secundárias para distâncias. No céu elas, quase que frequentemente, são nossas únicas fontes de informação dimensional. São essas pistas secundárias que nos permitem ter percepção das três dimensões a maiores distâncias de talvez até pouco mais que 3000 pés.
Gibson estava interesado nos gradientes de textura, vistos quando os aviões começam a se distanciar. Ele não quis dizer um avião desaparecendo, mas sim, superfícies planas, como um grande campo ou uma estrada. O detalhe nos quais podemos ver as folhas de grama gradualmente diminuindo com a distância; a textura da superfície vai de tosca num primeiro plano, clareando para uma textura mais suave num segundo plano. Isso é chamado de perspectiva de detalhes.
Esse clareamento das cores com a distância, ou "perspectiva aérea" foi outra das pistas de Gibson. Essa é a propriedade da luz de dispersar adiante no final azul/violeta do espectro à distâncias crescentes (a razão pela qual o céu parece ser azul).
A textura e o aspecto azul do céu são confundíveis e dependem da luz, e muito importante tanto para pilotos quanto pára-quedistas.Você já percebeu que do alto, em manhãs com o céu limpo, o chão parece mais perto? E com o entardecer, à mesma altura, o chão parece mais distante. Este é só um exemplo de detalhes e perspectiva aérea.
O tamanho aparente dos objetos e outra chave importante na percepção tridimensional, e muito familiar à maioria dos pára-quedistas. Enquanto alunos, somos encorajados a desenvolver um "altímetro visual", observando o quão "grande" o chão parece estar à altura de comando. A recente tragédia do Polo Sul (onde 4 pessoas morreram num salto no Polo Sul por perderem noção da altura e não terem comandado; apenas 1 sobreviveu, salvo pelo acionamento de seu Cypres) pode ilustrar o quão importante é essa noção de altura. Parece que a noção de altura foi um fator crucial, e num terreno não familiar e congelado, parece que a percepção de profundidade foi outro fator.
Seus altímetros visuais não funcionaram como normalmente fariam, alertando-os do perigo em tempo para evitar a tragédia. A perspectiva dos detalhes e o tamanho aparente do chão não foram de muita ajuda, ainda mais que não havia nada para olhar a não ser uma superfície branca e plana.
Por último, mas nem por isso menos importante, na lista de pistas secundárias de Gibson está a paralaxe do movimento. Modelos de tipos de movimento - psicólogos falam por relatividade - é um entre muitos modos de superar nossas dificuldades de percepção de profundidade no ar. Conforme nosso ponto de vista vai mudando, as coisas que parecem mover-se mais lentamente são vistas como se estivessem mais distantes.
No ar, a interação da paralaxe do movimento com o tamanho aparente dos objetos são especialmente importantes. A razão de variação do tamanho dos objetos é fundamental para o julgamento de distâncias quando, por exemplo, chegamos num swoop em uma base, ou nos aproximamos do chão para pousar.
Então com toda essa teoria em mente, voltemos para o início. Por que então foi tão difícil de julgar a distância do 4-way do chão? Bem, em termos de pistas (ou chaves), não havia muito a se concluir.
Eles estavam muito distantes de modo a qualquer uma das pistas funcionar. Havia um pequeno movimento relativo, conforme o 4-way ficou mais longe, mas a tal distância, a razão na qual seu tamanho aparente mudava era muito pequena para que tal informação fosse útil. Assim sobram apenas textura e cor (perspectiva dos detalhes e aérea), normalmente pistas secundárias para ajudar na percepção, mas nesse caso, a única informação útil.
Leva algum tempo para exercitar essas habilidades e para aprender a utilizar a visão tridimensional num ambiente "sem pistas" como o céu. Aprender a reparar na imagem de aproximação de um pouso leva tempo, e envolve pistas de textura normalmente sub-utilizadas. Como dizia meu primeiro instrutor: "Quando você ver nitidamente as folhas da grama - freie".